O homem sempre buscou a verdade. Nos primórdios, devido a sua limitação intelectual admirava a natureza sendo aquela a sua verdade.
Com a evolução, passou a compreender melhor os fatos, o meio-ambiente e iniciou aquilo que convencionamos como verdade modificada.
Juridicamente, tal verdade tem como limitação a coisa julgada material, mas alguns doutrinadores passaram-na a relativizar, gerando caos e insegurança. Mas o que é esta verdade?
Francis Bacon, em 1597 emitiu um "Ensaio sobre a verdade" baseado no julgamento de Jesus - "O que é verdade?, indagava pilatos em tom de pilhéria e sem aguardar uma resposta.
"Pilatos, entediado, sobre o assento da dourada curul, entreabre os braços para o Rabi sereno e ardilosamente lhe pergunta:
- Logo, tu és rei?
- É como dizes; eu sou rei. Foi por isso que nasci e vim ao mundo, para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade, ouve minha voz."
O ex-prefeito de Batávia toma no ar a palavra e replica:
"- Que é a verdade?"
O acusado espelha a tréplica na mansuetude do seu olhar, porém não concede, em palavras que seriam traduzidas pelo interprete oficial, postado perto do sólio de mármore e da loba romana de bronze luzente, aquela resposta que o mundo inteiro gostaria de assinalar hoje, como elucidamento da mais elevada investigação jurídica até os dias presentes.
Naquele processo histórico, não foi a vozearia da multidão lá fora no pretório, nem o tinido das lanças sobre o relevo dos escudos, nem a pressa do romano em compor a toga pretextata e lavar as mãos que de qualquer forma iam ser tintas pelo sangue do inocente, que evitaram a definição maravilhosa: foi o próprio designio misterioso de Deus. Subsiste, assim, a eterna interrogação: Que é a verdade?"
Brilhante também o posicionamento de Hans Kelsen sobre o tema:
"Quando Jesus de Nazaré, no julgamento perante o pretor romano, admitiu ser rei, disse ele: Nasci e vim a este mundo para dar testemunho da verdade. Cético, o romano obviamente não esperava a resposta a esta pergunta e o Santo também não a deu. Dar testemunho da verdade não era essencial em sua missão como rei messiânico. Ele nascera para dar testemunho da justiça, aquela justiça que Ele desejava concretizar no reino de Deus. E, por essa justiça, morreu na cruz.
Dessa forma, emerge da pergunta de Pilatos - O que é a verdade? - através do sangue do crucificado, uma outra questão, bem mais veemente, a eterna questão da humanidade: O que é justiça?
Nenhuma outra questão foi tão passionalmente discutida; por nenhuma outra forma derramadas tantas lágrimas amargas, tanto sangue precioso; sobre nenhuma outra, as mentes mais ilustres de Platão e Kant - meditaram tão profundamente. E, no entanto, ela continua até hoje sem resposta. Talvez por se tratar de uma dessas questões para as quais vale o resignado saber de que o homem nunca encontrará uma resposta definitiva; deverá apenas tentar perguntar melhor."
Conforme se compreende, inexiste a verdade, pois cada um terá a sua própria, bem como o operador do direito também não encontrará verdade nas salas de aula ou tribunais, apenas deverá cuidar de perguntar a si mesmo não "o que é a verdade?" e sim "a quem beneficia tal verdade?".
Encontrando tal resposta, saberá se posicionar profissionalmente e pessoalmente - ou a favor da "verdade hipócrita" ou contra ela, sendo assim um mero repetidor de leis ou um crítico e instrumento de mudanças em prol da justiça e atingimento real dos direitos sociais, cumprindo com seu múnus público e dignificando o tão nobre mister que é a advocacia, pois caso contrário outros inocentes serão "crucificados".
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